quarta-feira, 21 de agosto de 2013


O canto do quarto abrigava a velha estante. Nela, obras de consagrados autores repousavam tranquilamente esperando uma mãozinha. Estendia a minha, impulsionada por cores, formas, largura. Não conhecia todos aqueles nomes, mas alguns soavam tão bem. 

Vinícius. Como sabia falar de amor. Falava tocando. Eu o peguei, mas foi ele que me alcançou. Se poesia era isso, se reconhecer em algo escrito, também queria ser linha. Deixar o cotidiano rabiscar em mim.

Depois veio Leminski. Irônico. Preciso. Sucinto. Só sinto. Se poesia era isso, se era risco. Também desejava arriscar um novo jeito de escrever. De desafiar. Inventar meu jeito de transparecer. De ser. De me expor.

Escrevo porque abrigo coisas demais em mim. E a gente cresce, mas nosso espaço continua sempre curto. E a gente aquieta, mas nosso sossego quase sempre é breve.

Fernanda Gaona

Imagem: Doisneau

Um comentário:

Karina Sales disse...

Textos que nos decifram, que tocam a alma. Parabéns, Fernanda! Um abraço.